INFÂNCIA, DOCÊNCIA E EDUCAÇÃO PÚBLICA, FUNDAMENTOS PARA A FORMAÇÃO DE PROFESSORES
DOI:
https://doi.org/10.63330/aurumpub.047-006Palavras-chave:
Educação Infantil, Antirracismo, Currículo, Infâncias pluraisResumo
Este artigo problematiza a formação de professores a partir da articulação entre infância, docência e educação pública, tomando a Educação Infantil como campo estratégico para a compreensão das disputas que atravessam a educação das crianças pequenas no Brasil. Parte-se da premissa de que a formação docente constitui dimensão estruturante do debate educacional, uma vez que nela se inscrevem concepções de criança, de currículo, de cuidado, de avaliação, de política pública e de direito à educação. Nessa direção, sustenta-se que formar professores para a Educação Infantil requer base humanista, crítica, antirracista e comprometida com a defesa da escola pública e com o reconhecimento da pluralidade das infâncias. Mais do que preparar profissionais para a execução de práticas pedagógicas, trata-se de constituir sujeitos capazes de interpretar a densidade histórica e social da infância, de ler o cotidiano institucional em sua espessura pedagógica e de atuar diante das desigualdades que marcam a experiência infantil em uma sociedade atravessada por hierarquias de classe, raça e território. O artigo foi elaborado por meio de estudo teórico-bibliográfico e documental, em diálogo com autoras e autores do campo da Educação Infantil, da formação docente e da crítica social da educação, bem como com marcos normativos que reconhecem a criança como sujeito de direitos e a Educação Infantil como primeira etapa da Educação Básica. Ao longo do texto, argumenta-se que a docência na infância exige leitura atenta das relações entre tempos, espaços, materiais, brincadeiras, interações, linguagens, cuidado e participação das famílias, recusando tanto a escolarização precoce quanto a padronização curricular e o esvaziamento da experiência educativa. Discute-se, ainda, que a formação de professores precisa enfrentar a disseminação de racionalidades gerenciais e mercantis que reduzem a educação a desempenho, mensuração e adaptação, enfraquecendo o caráter público da instituição educativa. Defende-se, por fim, que uma formação docente consistente requer o reconhecimento do cuidado como dimensão pedagógica, a centralidade das interações e das brincadeiras, a incorporação de perspectivas antirracistas e inclusivas e o fortalecimento de práticas de estudo, reflexão e documentação pedagógica. Conclui-se que pensar a formação de professores desde a infância implica disputar projetos de educação e de sociedade, reafirmando a escola pública como espaço de direitos, produção cultural, convivência democrática e formação humana.
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