A LEI 10.639/03 COMO RUPTURA PARCIAL DO PACTO CURRICULAR DA BRANQUITUDE: DISPUTAS EPISTEMOLÓGICAS, RECOMPOSIÇÕES INSTITUCIONAIS E LIMITES DA REFORMA EDUCACIONAL BRASILEIRA
DOI:
https://doi.org/10.63330/aurumpub.050-005Palavras-chave:
Lei 10.639/03, Currículo, Branquitude, Colonialidade do saber, Base Nacional Comum CurricularResumo
Este artigo analisa a Lei 10.639/03 como intervenção que tensiona, sem romper, o pacto curricular da branquitude historicamente sedimentado no sistema educacional brasileiro. Argumenta-se que a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana não constitui mera expansão temática, mas fissura político-epistêmica que desloca a África e a população negra do lugar de ausência para o centro da narrativa formativa. Mobilizando a crítica racial brasileira, o pensamento decolonial e os estudos curriculares, demonstra-se que a lei opera simultaneamente como potência disruptiva e mecanismo de contenção, na medida em que sua institucionalização é atravessada por processos de folclorização, despolitização e resistência burocrática. A análise do Parecer CNE/CP nº 03/2004, da Resolução CNE/CP nº 01/2004 e da Base Nacional Comum Curricular permite compreender como o pacto curricular da branquitude, formalmente deslocado, se recompõe na linguagem normativa contemporânea. Sustenta-se que a eficácia transformadora da legislação reside menos em sua formalização jurídica e mais na capacidade de sustentar disputas concretas contra a soberania branca sobre a memória escolar.
Downloads
Referências
ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrutural. São Paulo: Pólen, 2019.
BENTO, Maria Aparecida Silva. Pactos narcísicos no racismo: branquitude e poder nas organizações empresariais e no poder público. 2002. Tese (Doutorado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano) — Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002.
BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 jan. 2003. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm. Acesso em: 2 abr. 2026.
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Parecer CNE/CP nº 03/2004, de 10 de março de 2004. Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 18 mar. 2004. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br. Acesso em: 2 abr. 2026.
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP nº 01/2004, de 17 de junho de 2004. Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 jul. 2004. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br. Acesso em: 2 abr. 2026.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2017.
CARNEIRO, Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. 2005. Tese (Doutorado em Educação) — Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.
GOMES, Nilma Lino. O movimento negro educador: saberes construídos nas lutas por emancipação. Petrópolis: Vozes, 2017.
GOMES, Nilma Lino; JESUS, Rodrigo Ednilson de. As práticas pedagógicas de trabalho com relações étnico-raciais na escola na perspectiva da Lei 10.639/2003: desafios para a política educacional e indagações para a pesquisa. Educar em Revista, Curitiba, n. 47, p. 19–33, 2013. https://doi.org/10.1590/S0104-40602013000100003
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: SILVA, Luiz Antônio Machado; MITO, Jorge; SOUZA, Maria Célia Garrido. (Org.). Movimentos sociais urbanos, minorias étnicas e outros estudos. Brasília: Anpocs, 1983. p. 223–244.
hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. Tradução de Ana Luiza D'Ávila Viana, Marina de Vasconcellos Amorim e Maria das Graças Soares Rodrigues. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
MIGNOLO, Walter D. A ideia de América Latina: o charco colonial e a colonialidade do ser. Tradução de Cabral Lino. São Paulo: Unesp, 2005.
MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2004.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo. (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: Clacso, 2005. p. 227–278.
SILVA, Petronilha Beatriz Gonçalves e. Aprender, ensinar e relações étnico-raciais no Brasil. Educação, Porto Alegre, v. 30, n. 3, p. 489–506, 2007. https://doi.org/10.15448/1981-2582.2007.3.5272
SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
VERRANGIA, Douglas; SILVA, Petronilha Beatriz Gonçalves e. Cidadania, relações étnico-raciais e educação: desafios e potencialidades do ensino de ciências. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 36, n. 3, p. 705–718, 2010. https://doi.org/10.1590/S1517-97022010000300008
WALSH, Catherine. Interculturalidad y (de)colonialidad: perspectivas críticas y políticas. In: WALSH, Catherine; SCHIWY, Freya; CASTRO-GÓMEZ, Santiago. (Org.). Indisciplinar las ciencias sociales: geopolíticas del conocimiento y colonialidad del poder. Quito: Universidad Andina Simón Bolívar; Abya-Yala, 2002. p. 43–69.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.