A ECONOMIA POLÍTICA DO ESQUECIMENTO: O PACTO CURRICULAR DA BRANQUITUDE E A PRODUÇÃO DE VALOR NA ESCOLA BRASILEIRA

Autores

  • Felipe A. O. Cantalice Autor

DOI:

https://doi.org/10.63330/aurumpub.050-004

Palavras-chave:

Lei 10.639/03, Pacto curricular da branquitude, Economia política do esquecimento e currículo, Valor e branquitude

Resumo

Este artigo propõe uma leitura da Lei 10.639/03 como intervenção em uma economia política do esquecimento que estruturou o currículo escolar brasileiro desde o século XIX. Ao invés de analisar a exclusão da história africana como mera lacuna ou preconceito, investiga-se como esse esquecimento foi produtivo: gerou formas específicas de capital simbólico, consolidou mercados de livros didáticos, naturalizou hierarquias raciais e distribuiu reconhecimento de modo desigual. O conceito de pacto curricular da branquitude, desenvolvido ao longo do texto, designa o arranjo histórico pelo qual a centralidade branca no currículo funcionou como norma invisível de acumulação e distribuição de valor cultural. A lei de 2003 representa ruptura parcial desse pacto: desloca a África do lugar de ausência, mas não dissolve os mecanismos que a produziram. Sustenta-se que a efetividade da legislação depende da compreensão de que não basta adicionar conteúdo, mas é preciso desmontar a economia política do esquecimento, operação que exige redistribuição de poder epistemológico, não apenas inclusão representacional.

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Publicado

2026-04-09

Como Citar

Cantalice, F. A. O. (2026). A ECONOMIA POLÍTICA DO ESQUECIMENTO: O PACTO CURRICULAR DA BRANQUITUDE E A PRODUÇÃO DE VALOR NA ESCOLA BRASILEIRA. Aurum Editora, 36-44. https://doi.org/10.63330/aurumpub.050-004