A LEI 10.639/03 COMO INSURGÊNCIA EPISTÊMICA INSTITUCIONALIZADA: MOVIMENTO NEGRO, ESTADO E DISPUTA PELA LEGITIMIDADE DO SABER
DOI:
https://doi.org/10.63330/aurumpub.050-011Palavras-chave:
Lei 10.639/03, Insurgência epistêmica, Movimento negro, CurrículoResumo
Este artigo analisa a Lei 10.639/03 como mais do que uma política de inclusão curricular, propondo sua interpretação como forma de insurgência epistêmica institucionalizada. Argumenta-se que a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana constitui a inscrição normativa de uma longa luta do movimento negro brasileiro contra a desautorização histórica do saber negro e contra a organização racial da memória escolar. Em diálogo com a crítica racial brasileira e o pensamento decolonial, o texto sustenta que a lei não inaugura esse debate, mas o desloca para o interior do Estado, conferindo-lhe densidade jurídica e capacidade de interpelação institucional. Ao mesmo tempo, demonstra-se que sua institucionalização não elimina as tensões que a constituem, uma vez que o reconhecimento estatal da pauta racial implica também processos de tradução e contenção. A análise articulada da lei, das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e da Base Nacional Comum Curricular evidencia que a força histórica da Lei 10.639/03 reside em sua condição ambivalente: ela não representa nem solução plena nem neutralização completa, mas um deslocamento decisivo na disputa pela legitimidade do conhecimento na escola brasileira.
Downloads
Referências
ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrutural. São Paulo Pólen, 2019.
BRASIL. Lei n. 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 jan. 2003.
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Parecer CNE CP n. 03 2004, de 10 de março de 2004. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Brasília, DF MEC CNE, 2004.
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE CP n. 01, de 17 de junho de 2004. Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Brasília, DF MEC CNE, 2004.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF MEC, 2018.
CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de racialidade a construção do outro como não-ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro Zahar, 2023.
GOMES, Nilma Lino. Movimento negro e educação ressignificando e politizando a raça. Educação e Sociedade, Campinas, v. 33, n. 120, p. 727-744, 2012.
GOMES, Nilma Lino. O movimento negro educador saberes construídos nas lutas por emancipação. Petrópolis, RJ Vozes, 2017.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In SILVA, Luiz Antônio Machado et al. Ciências sociais hoje. Brasília, DF ANPOCS, 1984. p. 223-244.
hooks, bell. Ensinando a transgredir a educação como prática da liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo WMF Martins Fontes, 2013.
MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil identidade nacional versus identidade negra. Petrópolis Vozes, 1999.
PETRONILHA BEATRIZ GONÇALVES E SILVA. Aprender, ensinar e relações étnico-raciais no Brasil. Educação, Porto Alegre, v. 30, n. 3, p. 489-506, 2007.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In LANDER, Edgardo org. A colonialidade do saber eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires CLACSO, 2005. p. 227-278.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.