LINGUÍSTICA E SEMIÓTICA COMO MECANISMOS GERADORES DE CISMOGÊNESE POLÍTICO-IDEOLÓGICA: O USO DA GUERRA DE TODOS CONTRA TODOS PARA A DOMINAÇÃO TOTALITÁRIA – COMO A ESTRUTURA PROGRAMÁTICA USADA PELOS MOVIMENTOS TOTALITÁRIOS DO SÉCULO XX TEM INFLUENCIADO O IDENTITARISMO RADICAL DO INÍCIO DO SÉCULO XXI
DOI:
https://doi.org/10.63330/aurumpub.006-006Palavras-chave:
Cismogênese, Totalitarismo, Retórica, Propaganda ideológica, Nazismo, Fascismo, Bolchevismo, Identitarismo radicalResumo
O uso da retórica como instrumento de convencimento e dominação é uma das práticas mais usadas ao longo de toda a História. Sua prática é retratada e denunciada por Sócrates, Aristóteles e Isócrates[1] contra os sofistas[2]. Durante todo este período, as táticas de levar ouvintes, leitores e espectadores a concordar e seguir determinadas ideias ou mesmo induzir este público a agir de uma determinada maneira, mudaram de acordo com nas condições do ambiente sem, no entanto, perder suas essências estruturais básicas. Tomando como recorte analítico os Séculos XX e XXI, é possível afirmar que surgiram diversos movimentos explorando a luta de todos contra todos como tática para atingir o poder máximo sobre um ou mais grupos sociais. Do bolchevismo soviético aos movimentos identitários radicais, passando pelo nazismo de Hitler e o fascismo de Mussolini, táticas de distensão do tecido social, onde “o outro” é sempre retratado a partir da ótica da diferença irreconciliável, do apartheid simbólico, da fronteira ontológica, a cismogênese foi usada para acentuar – mesmo que artificialmente – as diferenças e, desta maneira, destruir o equilíbrio entre as diferenças e qualquer construção de possíveis contratos sociais. Nesta aposta pelo conflito, grupos sociais foram criminalizados ou mesmo dizimados pelos agentes que prometiam a construção de um novo mundo, uma espécie de era dourada para “os escolhidos”. Não obstante, o resultado final destes eventos pode ser condensado em características comuns: fortalecimento do Estado como o único mediador social; surgimento de uma casta burocrática corrupta e totalitária; o sequestro de autonomias individuais, e; o naufrágio do concerto social.
[1] “Isócrates tece suas críticas aos sofistas erísticos (§1-8), i.e., professores de argumentação dialética em vista unicamente da vitória em um debate. O autor alega que o que prometem é mentiroso, hiperbólico e imoral, pois pretensamente ensinam aos discípulos saberes grandiosos, como a previsão do futuro, a felicidade e a justiça, ao mesmo tempo em que não se envergonham de cobrar ínfimos valores por tais ensinamentos. Esses sofistas estranhamente não confiam em seus alunos (ironia isocrática), apesar de supostamente ensinarem virtudes morais tão elevadas. Segundo Isócrates, portanto, não passam de impostores, pois suas palavras não são mais que ‘tagarelice e conversa fiada’ (ἀδολεσχία καὶ μικρολογία - §8).” (LACERDA, 2018, p. 69)
[2] “Os sofistas são professores que vão de cidade em cidade procurando audiência e que, por um preço conveniente, ensinam os jovens atenienses abastados a se destacar, através de lições de ostentação e de vários cursos e métodos cujo objetivo é tornar vencedora uma determinada tese que eles querem que seja aceita.
A verdade, assim, é substituída pela busca do sucesso e funda-se na arte de convencer, de persuadir e de seduzir.
Enfim, os sofistas buscam conquistar fama e riqueza no mundo e tornaram-se mestres de eloquência e retórica, ensinando aos homens ávidos pelo poder político a maneira de consegui-lo, pela via do convencimento.” (VIDAL DE SOUZA, 2009, pp. 14 d 15)
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